9 de junho de 2026

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Um ano sem Luiz de Deus – marcas

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Há pouco mais de um ano, morria Luiz de Deus, o montador de Paulo Afonso. Os primeiros prefeitos épicos da cidade passaram. Veio José Ivaldo com uma mentalidade mais organizada, com ênfase na administração mais racional por assim dizer, e depois, depois o doutor Luiz de Deus seguido de Anilton Bastos e Paulo de Deus. Concluída a fase da “montagem” com os itens fundamentais para o funcionamento da cidade.

O que passo para os leitores são reminiscências despretensiosas gravadas do meu ângulo de observação meio distante, mas com responsabilidade histórica.
Final da administração José Ivaldo e início da campanha eleitoral para a prefeitura. No rádio, em placares e nos comícios, a oposição bradava os nomes de Luiz de Deus e José Carlos Aleluia, nomes com os quais os meus ouvidos não estavam familiarizados. Que significariam esses nomes “canônicos”? Algo a ver com a Igreja [?], eu pensava. De fato, era o nascimento de lideranças novas na política de Paulo Afonso.

Então Luís de Deus candidato e o professor Anchieta a lembrar um cirurgião absolutamente competente, empregado da Chesf, sem nenhum registro de perda de um paciente. A minha percepção mais remota é de um jogo de futebol de salão no Cepeazinho. O avante Luiz de Deus tentava dominar a bola quando o doutor Zezinho, também médico da Chesf, de saudosa memória, o impediu de ir adiante com uma entrada brusca e decidida, o que pareceu a nós outros espectadores “uma entrada desleal”. Evidente que o doutor Zezinho cumpria a sua obrigação de barrar o ataque. Ali não estava o seu chefe do hospital, mas um atacante que carecia ser barrado. A reação do lateral barrado foi um sorriso maroto e o jogo terminou sem maiores problemas.
Agora o meu primeiro contato com o prefeito que acabara de ser eleito. Na rótula do Rotary Club, uma árvore que havíamos plantado, já mocinha, foi cortada.

Entrei gabinete adentro de sua excelência fumegando de raiva. Cortar uma árvore, por que cortar? A minha reação carrancuda deve ter espantado o prefeito que, não obstante, se levantou – ele me recebeu de pé! –, e pacientemente me garantiu que, na sua administração, nenhuma árvore seria cortada, salvo em alguma circunstância de segurança. Desconfio que ali nasceu a civilidade com que Luiz de Deus sempre me recebeu no seu gabinete. Certa vez ponderei se não seria mais útil e/ou racional enfatizar o saneamento da cidade, além da saúde e da educação, do que asfaltar as ruas de Paulo Afonso. “Mas calçamento é muito desconfortável”, ele respondeu. Hoje, concordo plenamente que conforto e bem-estar são fundamentais e devem ser levados em conta em qualquer planejamento.

A Chesf tentava se livrar do Hospital Nair Alves de Souza empurrando-o para a prefeitura. Médico experiente e ex-diretor do hospital, ele prontamente rechaçou a manobra alegando que o orçamento da administração municipal não comportaria a manutenção de um hospital de fato, um hospital regional. A sua visão prevaleceu e um grande hospital regional está sendo construído na cidade.

Creio que a minha entrada abrupta no seu gabinete descrita anteriormente deixou alguma marca no doutor Luiz. Estávamos no ar na Rádio Bahia Nordeste, Ozildo Alves e o vereador Antônio Alexandre. De repente, do nada, Alexandre disparou – creio já com o sermão encomendado: “Aceita ser nomeado diretor do Colégio Carlina Barbosa de Deus? A nomeação sai amanhã mesmo.” Agradeci a confiança, mas aleguei que não poderia aceitar a nomeação porque estava em processo de readmissão pela Chesf, o que realmente veio a acontecer. Outra proposta do doutor Luiz cogitada a meu respeito, que não posso revelar porque envolve uma terceira pessoa, posteriormente também muito me honrou.

Nos encontros, conversas e audiências, Luiz de Deus ouvia mais do que falava. Ele deixava o interlocutor à vontade sem pressão e muito menos coação. Assim sendo, em uma entrevista exclusiva, resolvi abordar a questão da corrupção no serviço público. “Se eu souber, demito na hora”, foi a resposta sem rodeios. Doutor Luiz de Deus gostava de conversar. Dava para notar que ele ansiava por um tipo de conversa franca fora dos conluios ou tratativas da política. Dava para perceber uma certa necessidade de conversar e se abrir com pessoas em quem ele podia confiar. O dia era dia de audiência pública e a antessala do gabinete estava lotada. Estávamos no gabinete, o professor Antônio Galdino e eu.

Tentávamos garantir o prédio antiga sede da Prefeitura para ser a sede da Academia de Letras de Paulo Afonso – o que se concretizou posteriormente. Conversávamos e argumentávamos que a Academia tinha planos para transformar o prédio paralelamente em um memorial do Prefeito Abel Barbosa além de uma biblioteca franqueada ao público. O prefeito ouvia, raramente ponderava alguma coisa, e dava sinais de concordar com a nossa argumentação. Aqui e acolá um assessor entrava na sala e nos olhava com ares de poucos amigos (a antessala estava lotada de munícipes ávidos por uma palavra com o prefeito). Mas o doutor Luiz puxava conversa. Vale a pena repetir a nossa percepção de um doutor Luiz de Deus ávido por um papo sincero e cordial com pessoas comprometidas com o desenvolvimento da cidade. Encerrada a audiência, tratamos de sair sorrateiramente pela porta lateral do gabinete evitando os olhares sisudos do pessoal da antessala.
A carruagem anda, os tempos mudam, mas é fundamental que olhemos para o passado como substrato para a continuação de um trabalho sério onde primaram homens de responsabilidade para com o povo de Paulo Afonso.

Francisco Nery Júnior

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